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Iniciativa Amazônia+10 financia projeto sobre herpetofauna que une ciência e comunidades

  • há 20 horas
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Objetivo é compreender os mecanismos envolvidos nas respostas das espécies amazônicas às mudanças climáticas e mitigá-los

Foto: Jordana G. Ferreira
Foto: Jordana G. Ferreira

 

A Iniciativa Amazônia+10 apoia um projeto estratégico que coloca a herpetofauna amazônica, que reúne os grupos de organismos anfíbios e répteis, no centro das discussões sobre mudanças climáticas e conservação da sociobiodiversidade. Intitulada “Mudanças climáticas e a sociobiodiversidade amazônica: perspectivas da herpetofauna”, a pesquisa é coordenada pela Profa. Dra. Fernanda Werneck do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e reúne cerca de 60 integrantes vinculados a cinco Instituições e Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs), conectando instituições do Norte (INPA-FAPEAM e Universidade Federal do Tocantins-FAPT), Nordeste (Universidade Federal da Paraíba-FAPESQ) Sul (Universidade Federal do Paraná-Fundação Araucária) e Sudeste (Universidade de São Paulo-Ribeirão Preto-FAPESP) do Brasil.


Selecionado na 1ª Chamada da Iniciativa, o projeto desenvolve abordagens ecológico-evolutivas e socioambientais integrativas para compreender e mitigar os impactos do aumento da temperatura global sobre espécies e populações naturais de anfíbios e répteis amazônicas, além de um foco especial  em programas de manejo e conservação de espécies de quelônios.


Expedições inéditas e produção de dados estratégicos


Entre as principais ações já realizadas no projeto estão duas grandes expedições científicas de inventário, coleta de dados funcionais associados (e.g., morfológicos, fisiológicos) e amostras biológicas para estudos genéticos em comunidades biológicas. Uma delas ocorreu na Estação Ecológica de Maracá em Setembro/2024 , onde a equipe foi a primeira a retomar pesquisas nessa Unidade de Conservação sob gestão pelo ICMBio após período de fechamento da área. A outra expedição aconteceu na Floresta Nacional de Tefé em Abril/2024, contou com apoio do Instituto Mamirauá, fortalecendo a coleta de dados em unidades de conservação estratégicas.


Além disso, a pesquisa também atua realizando ações de popularização e extensão junto às  comunidades e escolas locais que acontecem durante as expedições e contam com a participação de todos envolvidos.


O projeto gerou a produção de um minidocumentário, visando apresentar a  pesquisa realizada na Flona de Tefé: https://www.youtube.com/watch?v=TDzSQJ7uwRM , a partir do trabalho do fotógrafo e cineasta Miguel Monteiro, que acompanhou os trabalhos.


Os dados coletados estão contribuindo diretamente para o avanço do conhecimento no campo estratégico de  Biologia das Mudanças Climáticas e também para políticas públicas concretas e instrumentos oficiais de conservação da biodiversidade, como avaliações de status de conservação das espécies, elaboração de listas vermelhas identificação de espécies e regiões geográficas mais ameaçadas e para formulação de Planos de Ação Nacional (PANs) coordenados pelo ICMBio. A equipe também integra o Grupo de Assessoramento Técnico (GAT) de PANs, contribuindo com informações sobre mudanças climáticas aplicadas à conservação da fauna amazônica.


Foto: Jordana G. Ferreira
Foto: Jordana G. Ferreira

Ciência construída com comunidades e programas de conservação


Um dos diferenciais do projeto é a atuação direta junto a comunidades ribeirinhas e indígenas nas bacias do Rio Negro e Rio Araguaia-Tocantins. No Amazonas, a parceria com a Comunidade Indígena Aldeia Barreirinha localizada no rio Cuieiras na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga-Conquista tem fortalecido práticas de manejo comunitário participativo de quelônios, incluindo o uso de chocadeiras semi-artificiais para monitoramento da temperatura de incubação dos ninhos e seus efeitos sobre diversos aspectos da biologia de duas espécies de quelônios que ali ocorrem (irapuca - Podocnemis erythrocephala e cabeçudo - Peltocephalus dumerilianus, como a sobrevivência, desenvolvimento e morfologia dos filhotes, suas respectivas performances de natação e corrida, além dos limites de tolerância termal (chamadas temperaturas críticas mínimas e máximas).


O conhecimento tradicional tem sido fundamental para o desenho metodológico da pesquisa e para a execução de todas as etapas de monitoramento que se dá ao longo dos ciclos anuais de reprodução das espécies. Por exemplo, experimentos inicialmente previstos foram redesenhados após diálogo com as comunidades da região, garantindo que a investigação científica não causasse impactos negativos às populações naturais das espécies nem causasse grandes mudanças na rotina das comunidades que fazem o monitoramento e cuidados com os filhotes.


A iniciativa também promoveu oficinas de capacitação junto a comunitários da RDS sobre  o monitoramento participativo de quelônios, ampliando o intercâmbio de saberes entre pesquisadores do projeto, profissionais da Secretaria de Estado de Meio Ambiente (SEMA) do Amazonas, monitores da biodiversidade e moradores locais e incentivando práticas sustentáveis, como o turismo de base comunitária.


Já na bacia do Rio Araguaia-Tocantins o projeto liderado pelo Dr. Thiago Portelinha atua em parceria com o IBAMA/TO, em sua base do Programa Quelônios da Amazônia (PQA), no rio Araguaia na divisa entre os estados do Pará e Tocantins. O projeto tem apoiado as ações do PQA/TO através de capacitações técnicas e otimizando as ações de manejo e conservação implementadas pelo órgão. O grupo de pesquisadores colabora com o treinamento de voluntários e servidores do IBAMA sobre o manejo conservacionista.


Ainda, no rio Araguaia, a equipe de pesquisa da Iniciativa Amazônia+10 visitou a comunidade local, em especial os ribeirinhos, com o intuito de obter informações sobre o conhecimento tradicional relacionado às percepções das mudanças climáticas e suas interações com os quelônios amazônicos. Os relatos da população tradicional associam fortemente os eventos extremos (e.g., secas e cheias) com o ciclo hidrológico e, consequentemente, impactos negativos na reprodução das espécies. O diálogo entre os pesquisadores e a população tradicional estreitou os laços entre a ciência e a população ribeirinha, e possibilitou discutir e reforçar a importância e a sensibilização ambiental sobre os quelônios.


Foto: Jordana G. Ferreira
Foto: Jordana G. Ferreira

Produção científica e formação de pesquisadores amazônidas


O projeto já resultou na defesa de três dissertações de mestrado e quatro teses de doutorado, além de inúmeras outras em desenvolvimento, fortalecendo a formação de pesquisadores na Amazônia. Observa-se uma participação feminina expressiva na equipe, além de uma rede colaborativa que promove co-orientações entre diferentes estados brasileiros.


Segundo a coordenadora, Dra. Fernanda Werneck (INPA), a pesquisa colaborativa e o compromisso com uma ciência não colonial são marcas do projeto. “As equipes que participam das expedições são convidadas a colaborar e apoiar a organização semanas antes do início das pesquisas em campo, incentivadas a  compreender o território, fortalecendo vínculos e promovendo uma atuação ética e integrada”, disse.


Comunicação científica e engajamento público


Além da produção acadêmica, o projeto investe fortemente em popularização e divulgação científica. Em parceria com outros projetos (e.g., BioClimAmazônia financiado pelo Biodiversa/FAPEAM e CNPq), foram produzidas cartilhas educativas, jogos, materiais audiovisuais e até o momento um minidocumentário sobre a expedição de inventário à Flona de Tefé -  um novo minidocumentário sobre a pesquisa na RDS Puranga Conquista está em fase final de produção. A equipe também participou de podcasts, reportagens e conteúdos para televisão e rádio, ampliando o alcance dos resultados para além do meio acadêmico.


Foto: David Ayronn
Foto: David Ayronn

Impactos e perspectivas


Os resultados já influenciam programas municipais e estaduais de conservação, inclusive de espécies de anfíbios e répteis consideradas sob risco de extinção, e contribuem para aprimorar políticas públicas voltadas ao manejo sustentável de quelônios e à proteção da biodiversidade frente às mudanças climáticas.


“Para os próximos anos, a expectativa é buscar financiamento para ampliar e consolidar o monitoramento de quelônios em longo prazo, consolidar os bancos de dados e resultados obtidos para múltiplas espécies e comunidades biológicas assim avançar os estudos de Biologia das Mudanças Climáticas com dados de populações naturais amostradas in situ na Amazônia  e fortalecer o modelo de transposição do conhecimento científico para comunidades locais, criando metodologias replicáveis em diferentes territórios da Amazônia.”, explicou Profa. Dra. Fernanda Werneck.


Ao integrar ciência de ponta, conhecimento tradicional e engajamento social, o projeto financiado pela Iniciativa Amazônia+10 reafirma o papel estratégico da pesquisa colaborativa no enfrentamento das mudanças climáticas e na proteção da sociobiodiversidade amazônica.



 

 
 
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